Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.





Belo Horizonte

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Uma das minhas paixões: ORQUÍDEAS. Um pouco do meu orquidário para apreciação.






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11:10 PM


Poesia


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.


Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.


Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.


Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,


Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Rabiscado por Andarilha descalça

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10:32 PM


O MENINO CAÇADOR
Paulo Gondim


Corre o tempo, corre o vento
Corre a nuvem, corre o mar
Corre o menino no mato
Corre o menino a caçar

A vida parece ingrata
Corre o menino da fome
Corre o menino na mata
No medo que lhe consome

Na duvidosa corrida
Tanto corre, como indaga
Por que tanta diferença
Tanta guerra, tanta praga?

E o tempo do menino
Já não passa devagar
Tão cedo se atira ao mundo
Pois é preciso caçar

E o menino caçador
Só tem tempo pra caçar
Não tem sonho, não tem vida
Nem sequer pode brincar.



Rabiscado por Andarilha descalça

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2:32 PM


(ESCRE)VER-ME

nunca escrevi

sou
apenas o tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

Mia Couto


Rabiscado por Andarilha descalça

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8:43 PM


JOGO DA VERDADE
A verdade é um labirinto.

Se digo a verdade inteira,
se digo tudo o que penso,
se digo com todas as letras,
com todos os pingos nos is,
seria um deus-nos-acuda,
entraria um sudoeste
pela janela da sala.
Então eu digo
a verdade possível,
e o resto guardo
a sete chaves
no meu cofre de silêncios.

Roseana Murray


Rabiscado por Andarilha descalça

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9:47 PM


Espaço curvo e finito
José Saramago


Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)


Rabiscado por Andarilha descalça

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2:49 PM



EPPUR SI MUOVE

para Leonardo e Clodovis Boff

Não se pode calar um homem.
Tirem-lhe a voz, restará o nome.
Tirem-lhe o nome
e em nossa boca restará
a sua antiga fome.

Matar, sim, se pode.
Se pode matar um homem.
Mas a sua voz, como os peixes,
nada contra a corrente
a procriar verdades novas
na direção contrária à foz.

Mente quem fala que quem cala consente.
Quem cala, às vezes, re-sente.
Por trás dos muros dos dentes,
edifica-se um discurso transparente.

Um homem não se cala
com um tiro ou mordaça. A ameaça
só faz falar nele
o que nele está latente.

Ninguém cala ninguém,
pois existe o inconsciente.
só se deixa enganar assim
quem age medievalmente.

Como se faz para calar o vento
quando ele sopra
com a força do pensamento ?
Não se pode cassar a palavra a um homem,
como se caçam às feras o pêlo e o chifre
na emboscada das savanas.
Não se pode, como a um pássaro,
aprisionar a voz humana.
A gaiola só é prisão
para quem não entende
a liberdade do não.
Se a palavra é uma chave,
que fala de prisão, o silêncio
é uma ave
- que canta na escuridão.

A ausência da voz
é, mesmo assim, um discurso.
É como um rio vazio, cujas margens sem água
dão notícia de seu curso.

No princípio era o Verbo
- bem se pode interpretar:
no princípio era o Verbo
e o Verbo do silêncio
só fazia verberar.
Na verdade, na verdade vos digo:
mais pertubador que a fala do sábio
é seu sábio silêncio,
com-sentido.

O que fazer de um discurso interrompido ?
Hibernou ? Secou na boca, contido ?
Ah, o silêncio é um discurso invertido
modo de falar alto
- proibido.

O silêncio
depois da fala
não é mais inteiro.
Passa a ter duplo sentido.
É como o fruto proibido, comido
não pela boca,
mas pela fome do ouvido.

Se um silêncio é demais,
quando é de dois, geminado,
mais que silêncio
- é perigo,
é uma forma de ruído.

Por isto que o silêncio
da consciência,
quando passa a ser ouvido
não é silêncio
- é estampido.

Affonso Romano de Sant`anna


Rabiscado por Andarilha descalça

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7:09 PM



chuva

hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele/
e parece sua sombra/
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta se entra em muitos lugares/
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/nem na alma/
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/que chove muito/
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e somente a alma sabe onde os dois se encontram/
e quando/e como/
mas o que pode a alma explicar?/
por isso meu vizinho tem tormentas na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/
à chuva/
ao meu coração desterrado/

Juan Gelman


Rabiscado por Andarilha descalça

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3:37 PM



A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles



Rabiscado por Andarilha descalça

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10:21 AM


Não cantes para mim
Renata Pallottini

Não cantes para mim
que não te ouço

Tenho o ouvido lanceado
por um dardo

Tempo, talvez,
Talvez o ruído absurdo

das palavras de amor
que me neguei a ouvir



Rabiscado por Andarilha descalça

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3:46 PM


Poema de Pedra


Eu pedra bruta do tempo
que me passou esquecido
no inventário do momento
de viver de eu ter morrido
percorro o longo decurso
de todo o tempo perdido.

Eu profetas de gomorras
ruir de torres tombadas
sodomas de meus sentidos
de extintas almas salgadas
artesão de antigos sonhos
de mãos rudes algemadas.

Eu perdido se me encontro
sensível ao que não sente
descaminho de um futuro
de algum passado presente
vou pedra fingindo a carne
e sangue fingindo a gente.

Eu castelos de crepúsculos
naus sombrias sobre vagas
eu mortalha dos moluscos
de esperanças naufragadas
faz-se em mar a minha vida
das marés que são choradas.

Eu templo de deuses mortos
becos tortos sem calçadas
vendo o mundo das janelas
que o amor deixou fechadas
sou um elo entre essas vidas
que se atraem separadas.

Hoje sou pastor de rios
sentinela das colinas
mirante das fortalezas
nas ameias das neblinas...
É por mim que à noite
os ventos vêm chorar
sobre as ruínas.

A. Estebanez



Rabiscado por Andarilha descalça

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9:55 PM


Estranho Poema

Quis escrever o poema mais estranho
O mais realista e mais triste
Durante esta longa madrugada
Mas a caneta caiu-me da mão.

Quis escrever um nome
Soletrar todas as suas letras
Senti enorme vontade de o fazer
Mas a caneta caiu-me da mão.

Quis escrever sobre isolamento
Sobre despatriados, deslocados
Que não estão, nem aqui nem ali
Mas a caneta caiu-me da mão.

Quis escrever sobre mim
Emoções, razões, negações
Pensamentos, interrogações, pesar
Mas a caneta caiu-me da mão.

Quis escrever sobre a verdade
Aquela que se diz olhos nos olhos
E que é tão rara nos dias de hoje
Mas a caneta caiu-me da mão.

Quis, enfim, escrever qualquer coisa
Que o meu raciocínio não concebeu
Não encontrou uma forma de o fazer
E dei com a caneta caída no chão.

Estela Belém


Rabiscado por Andarilha descalça

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11:36 PM


As poucas palavras
Eugênio de Andrade

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.

Só isso: o céu azul, a sombra lisa,

o livro aberto.

E algumas palavras. Poucas,

ditas como por acaso.



Eram contudo palavras de amor.

Não propriamente ditas,

antes adivinhadas. Ou só pressentidas.

Como folhas verdes de passagem.

Um verde, digamos, brilhante,

de laranjeiras.



Foi como se de repente chovesse:

as folhas, quero dizer, as palavras

brilharam. Não que fossem ditas,

mas eram de amor, embora só adivinhadas.

Por isso brilhavam. Como folhas

molhadas.


Rabiscado por Andarilha descalça

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7:27 PM


Pássaro e Mulher
Dora Ferreira da Silva

Quem me prende
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me – grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.


Rabiscado por Andarilha descalça

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8:30 PM


Da miragem, um mirante...

En_costas nuas
A noite serpent_ teia ilhas
O crime...a carne...a bala perdida

O descrente bebe a realidade
E tomba em seus pedaços
Refletidos no copo
Estilhaços de corpo bóiam

[Haverá ainda uma alma?]

Embriagada a lucidez
O homem
Estranha-se
Entranha-se
E em transe
Bebe goles de ilusão

E na boca de uma mulher
[Tão estrangeira quanto ele]
Jorra os rios do seu interior...

Ala[r]gados no invisível que trança o destino

Agora são dois barcos costurando o mar
No sertão de cada um

Da secura dos olhos brotam oásis
Da miragem, um mirante ...

(RaiBlue)


Rabiscado por Andarilha descalça

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8:44 PM


Quase
de Mário de Sá Carneiro

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo… e tudo errou…
- Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou…
Momentos de alma que, desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…


Rabiscado por Andarilha descalça